O melhor da feira: Emmanuelle Fructus

Paris Photo 2016

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 -  12 / dez

De onde é, e para onde vai a fotografia?

Finalmente vivenciei a experiência completa: 5 dias de Paris Photo.

Após os trágicos eventos do ano passado que encurtou a edição de 2015 no terceiro dia, esta edição (que foi comemorativa de 20 anos do evento) teve enorme público e muita, mas muita, oferta de fotografias em muitos suportes e formatos.

Começando na entrada o evento impressiona. Não apenas pela beleza do Grand Palais que o comporta em grande estilo, mas pelo volume de pessoas nas filas de todas as entradas, mesmo com o “serviço” de ansiosos cambistas tentando vender cartões vips desviados. Nem todos ali são clientes das galerias participantes, mas são todos consumidores de foto na forma mais crua da palavra pois ao olhar para uma fotografia você já a esta consumindo.

Isso é muito nítido, o interesse do público é muito grande, e todos os galeristas (pelo menos os que pude conversar) entendem que qualquer um ali pode ser um comprador, talvez não nessa edição da feira, mas um dia e talvez em algum outro local, e por isso todos eles são extremamente atenciosos. Quando perguntei sobre alguma obra, mesmo nas grandes galerias do circuito internacional, fui muito bem recebido o que me deu a impressão de ser uma feira menos oca, menos social e talvez mais cultural (o que não é exatamente o sonho dos galeristas) mas o fato é que ali é o epicentro comercial da fotografia autoral.

Os muitos festivais de fotografia ao redor do mundo como Arles e Valongo, para citar poucos, questionam a produção fotográfica e proporcionam pensamento e reflexo sobre o tema, mas o Paris Photo é o campo de prova disso tudo, pois além da possibilidade de se obter sucesso comercial é uma feira onde importantes figuras de instituições tem a chance de prestar atenção em seu trabalho.

Um charme é extra é o fato de que lá você encontra grandes fotógrafos tomando vinho (ou fazendo qualquer outra coisa banal como isso). Atrás de você Elliot Erwitt passeando desapercebido, Martin Parr comprando livros, uma simples folha anuncia que Antoide D’Agatha esta assinando livros e por ai vai. A força motriz de tudo o que olhamos como referencia está ali.

Uma dessas forças estava em uma manhã na Maison Europenne falando sobre seu trabalho. Foi sem querer que tive a sorte de escutar Andres Serrano explicando seus maravilhosos retratos, e dessa experiência algumas coisas que ele disse me marcaram.

Em um dos trabalhos, sobre moradores de rua, Serrano começava a conversa com a pessoa que desejava fotografar dizendo: “Eu sou um artista e vejo as coisas de uma maneira diferente…” De que outra maneira você pode justificar a um morador de rua que quer fotografá-lo e tentar convence-lo a não se chatear com um cara que quer te perturbar por pelo menos meia hora, montando luzes e girando ao seu redor? Ele usa o termo “morador” (e não mendigo) para mostrar que não o ignora, “afinal esta pessoa de fato mora em minha cidade ” ele completa. Essa postura verdadeira e humana transparece nos maravilhosos prints expostos na instituição.

Outra coisa que ele enalteceu como um ponto de estudo muito intenso é sua descendência, assim como de muitas outras pessoas que registra. Ele se diz cansado de ser chamado de “Cubano – Americano” sendo que tanto ele como sua mãe nasceram nos Estados Unidos. A confusão vem pois sua mãe foi criada em Cuba. Dito isso, destaco a segunda coisa que me marcou: Serrano diz que seu trabalho só acontece por que ele precisa de um motivo para fazer tal retrato. Maior exemplo disso é o fato de que ele morou sete anos com sua então esposa que era pilota do exercito americano, mas só veio a retratá-la quando quis falar sobre os atentados de 11 de setembro, eles já estavam separados.

Ainda com foco em origens vamos falar de livros. Um deles que chamava atenção no stand do Madalena é o enorme “Somos Brasileiros” que apresenta alguns retratos em ordem cronológica (da pessoa mais jovem a mais idosa) e mapeia a origem do retratado pois, segundo o fotógrafo Marcus Lyon, o dna humano pode conter até 7 gerações de material genético.

O livro é uma enciclopédia moderna pois ainda é possível escutar a voz de cada um dos personagens ao se utilizar de um app específico. Os retratos poucos expressivos fazem do livro uma peça didática incrível mas pouco emocionante.

Ainda em livros pude ver muitas publicações interessantes e me chamou atenção a quantidade de livros em destaque usando imagens apropriadas, ou seja autores de livros mas não necessariamente autores das imagens contidas nos livros. O mercado de fotolivros está dando cada vez mais força para a narração e não para as imagens em sí, muito interessante, e as vezes um pouco perturbador. Os japoneses sempre trazem publicações maravilhosas, e este ano não poderia ser diferente. (Aproveito para anunciar a venda do meu carro a fim de pagar a conta dos 26 livros que trouxe)

A idéia principal era vender, afinal o Paris Photo é uma feira!

Fiz o lançamento do meu terceiro livro “Movimento Estático” no sábado e fiquei contente com o resultado. Para um artista, o território novo e altamente competitivo é um desafio que mostra como nosso meio é duro. Segundo as contas da própria editora Madalena foram vendidos cerca de 30 livros, eu pessoalmente fiquei muito contente e achei que ter a chance de explicar seu trabalho do zero para uma pessoa de fora, realmente interessada, um verdadeiro privilégio. Mesmo com 26 livros a mais na bagagem volto de lá com coisas não materiais na bagagem muito mais importantes.

Vai ser interessante comparar com o evento dá próxima terça feira onde farei o lançamento na minha cidade, no conforto do meu bairro!

De maneira geral um evento como este coloca um artista (e algumas de suas diretrizes criativas) em outra perspectiva, o faz pensar e avaliar coisas das quais não se esta acostumado, sejam elas teóricas como o porque de perseguir uma ideia, como algo prático como a montagem de uma obra em um suporte diferente. Visitar o Paris Photo é como descobrir que sua máquina tem o mesmo números de botões que você usa, mas nunca viu ali, O benefício verdadeiro esta em sair de lá com mais perguntas do que respostas.

De maneira bem direta, abaixo algumas coisas que me chamaram atenção.

Galeria de Fotos: Paris Photo 2016

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