Fotografia em preto e branco de Marcus Laranjeira

Ele trocou o certo pelo incerto

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 -  19 / set

Marcus Laranjeira comenta a série Metropolis, que fica em exposição no MIS-SP até 16 de outubro

Quando a fotógrafa Gillian Wearing retratou, em meados dos anos noventa, um jovem executivo segurando um cartaz com a frase “Estou desesperado”, ela sintetizou bem o que pode acontecer na busca por um trabalho estável, com reconhecimento e sucesso financeiro: a descoberta indesejada de que o desenvolvimento profissional pode ser incompatível com as nossas demandas pessoais. Muitas vezes, uma vida “normal” exige escolhas fatais para nossos desejos e inclinações, e para contornar essa situação são necessárias algumas mudanças que nem todos nós estamos dispostos a fazer. Mas esse não é o caso de Marcus Laranjeira, que mandou o mundo corporativo às favas, disse adeus aos ternos e gravatas e decidiu recomeçar tudo outra vez.

“Você já ouviu falar em normose? É a doença de ser normal. É quando percebemos que o esforço para se adequar ao que a sociedade espera está esgotando a gente e nos deixando frustrados. É quando concluímos que o normal virou patológico”, diz. Em 2011, Marcus decidiu abandonar o cargo de analista de sistemas em uma grande empresa de tecnologia da informação e apostar naquilo que fazia suas conversas com o chefe: filmes e fotografia modernista.

“Minha esposa me deu respaldo para fazer essa escolha”, explica, dizendo que essa história de homem provedor está longe de ser uma preocupação do casal. “O momento era oportuno: nós já tínhamos decidido que não queríamos ter filhos, eu estava com 35 anos e a terapia havia me mostrado que era hora de fazer algumas mudanças. A Cris [esposa de Marcus] topou assumir algumas das responsabilidades financeiras e eu, para ajudar, cancelei planos de celular, de televisão, vendi o carro e comecei a fazer as coisas à pé. Onde quer que eu pudesse cortar gastos, eu cortava. Enquanto não surgiam os trabalhos aos quais me dedico hoje, usava o tempo livre para andar pela cidade com a câmera à tiracolo”.

Fotografia em preto e branco de Marcus Laranjeira

Fotografia da série “Metropolis”, de Marcus Laranjeira, em exibição no MIS-SP

Fotografia em preto e branco de Marcus Laranjeira

Fotografia da série “Metropolis”, de Marcus Laranjeira, em exibição no MIS-SP

Os resultados foram – e ainda estão – aparecendo. Até agora, as fotografias de Marcus foram aceitas no  The New York Photo Awards 2012 (Estados Unidos), no Khayyam International Exhibition Of Photography 2013 (Irã), no Cairo International Photographic Art Exhibition (Egito) e em diversos salões de arte brasileiros. Hoje ele integra o corpo de fotógrafos da recém-inaugurada Galeria Porão e sua primeira exposição individual está sendo exposta no Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS-SP), como parte do programa Nova Fotografia. O ensaio, chamado de Metropolis em homenagem ao filme homônimo de Fritz Lang, mostra “o que é viver em São Paulo, uma cidade que privilegia o cinza do cimento e a aspereza do concreto, desconstruindo a ideia de que essa ‘selva de pedra’ é impenetrável”. 

“Eu fiquei muito feliz por ter conseguido passar no MIS, principalmente porque eu não fiz o ensaio pensando no edital. Eu fiz porque gosto da cidade, das formas geométricas e gosto de editar imagens no computador. Eu faço as coisas que têm a ver comigo, não com temas que eu acho que podem agradar o curador. Eu penso assim: é melhor ser autêntico do que ‘o primeiro’ a fazer qualquer coisa” – mesmo porque, cá entre nós, como diz o poeta Ricardo Aleixo, “esse papo de ‘fulano fez primeiro’, ou ‘eu fiz primeiro’, em arte, é de uma total porforice. Parece com o ‘quem comeu primeiro’”, não é mesmo? 😉

Confira a seguir uma entrevista com Marcus Laranjeira sobre seu trabalho autoral e a série Metropolis, que fica em exibição até 16 de outubro no MIS-SP. Aproveite para visitar a mostra dedicada a Graciliano Ramos e – é claro – a exposição do Castelo Rá-Tim-Bum, que foi prorrogada até 16 de novembro.

Entrevista – Marcus Laranjeira

Sobre Metropolis

Escolher São Paulo como palco para as fotografias de Metropolis foi só uma questão de conveniência ou você também vê esta cidade, em especial, como um símbolo da vida moderna?

Nem uma coisa nem outra. São Paulo é uma das maiores cidades do mundo, mas não foi por isso que eu escolhi fazer as fotos aqui e nem pelo fato de já morar na cidade. Eu sempre tive uma relação de amor e ódio com São Paulo (como a maioria dos paulistanos, acho). A série fala sobre a cidade a partir do centro, porque é uma região onde eu costumo andar com frequência e um lugar que me dá uma sensação de sufocamento por causa da arquitetura sobreposta, opressora. Essa ideia ficou mais forte no período em que eu buscava as fotos para a série, quando eu tive a oportunidade de rever Metropolis, filme de Fritz Lang, que previu em 1927 a massificação e a opressão urbana que eu busco mostrar nas 15 fotografias que compõem o ensaio.

A urbanização desenfreada é um dos temas desse trabalho.

Se você prestar atenção nas construções, nas pinturas, no mobiliário urbano de São Paulo e até mesmo em alguns pontos das calçadas e ruas você vai encontrar remendos, construções sobre construções, camadas e mais camadas que foram se acumulando ao longo das reformas e adaptações urbanas. A metrópole cresce desenfreada e descontroladamente, e este crescimento “altera sua forma originária privilegiando o cinza do cimento e a aspereza do concreto”, como digo no texto que explica a série. O uso da sobreposição, além de retratar isto, também é o recurso que eu quis usar para transformar as estruturas sólidas e ásperas em leves camadas transparentes, causando estranhamento ao mesmo tempo em que provoca conforto, pois mesmo sendo improváveis, as cenas são conhecidas ou reconhecíveis e remetem diretamente à metrópole paulista.

O que são esses acetatos que você colocou no LCD da câmera? Como surgiu a ideia de usá-los e quais foram as dificuldades?

A sobreposição é uma ideia que esteve presente desde o início da pesquisa para criar esse ensaio. Eu via os prédios, imaginava aquele quadro sobreposto com outro, mas quando chegava no computador as sobreposições não aconteciam como eu previa, do jeito que eu queria. Eu usei os acetatos pra resolver esse problema. Depois de fotografar, eu grudava um pedaço de acetato no LCD da câmera e desenhava as linhas de força daquela foto no acetato, usando-o como guia para procurar o par que ia fazer a sobreposição. O acetato, no caso, funcionou como um rascunho das imagens.

Um aspecto que me chamou a atenção em Metropolis é que não tem pessoas nas imagens.

Não foi proposital a ausência de figuras humanas, mas ao trabalhar com as imagens sobrepostas, procurando privilegiar os sólidos (mesmo que transformando-os em estruturas transparentes), o pouco de gente que aparecia desapareceu.

 

Sobre o trabalho autoral

Como e quando surgiu o interesse em fotografia? 

A fotografia apareceu para mim muito cedo. Meu pai me deu uma câmera Tekinha (que tenho até hoje) quando eu tinha 4 anos. Comecei a fotografar com essa idade mesmo. Entre os 6 e 22 anos, eu fiquei mais na pintura do que na fotografia, porque nessa época eu estudava em um ateliê. Depois disso voltei a fotografar. Eu fiz alguns cursos livres também.

O fotógrafo Marcus Laranjeira com quatro anos de idade

O fotógrafo Marcus Laranjeira com quatro anos de idade, depois de ganhar uma Tekinha (câmera de brinquedo que cabia dentro do bolso, sucesso no final dos anos 1980)

 

É verdade que as ideias para fazer séries fotográficas surgem de repente? 

Não sei se isso é uma regra ou se é assim com todo mundo. Comigo é. Quando eu larguei tudo para me dedicar à fotografia, eu tinha uma neura de que tinha que produzir o tempo todo, se não, “não estava trabalhando”. Eu percebi que quanto mais eu tentava, menos conseguia. Quando desencanei dessa neura, a coisa fluiu e as ideias começaram a aparecer. Algumas eu desenvolvo, outras eu vou projetando, algumas ainda só existem no campo das ideias e em mapas de palavras que eu mantenho guardado comigo. Dependendo do projeto, antes mesmo de clicar, já imagino o formato ou como vou fazer as fotos. Os “insights” aparecem quando eu menos espero. Pode ser andando de bike, caminhando, jogando videogame, no banho (dentro do box eu mantenho um bloquinho de anotações à prova d’água) e etc. Sempre que possível anoto essas idéias. Em nenhum momento eu forço a barra ou penso num projeto só para passar num edital ou para vender. Faço para mim. Depois eu vejo o que fazer com isso. Exemplo: a série Labirinto Invisível, que versa sobre o piso tátil para cegos na Avenida Paulista, que ainda não foi inscrita em nenhum concurso ou coisa parecida.

Que outros projetos você tem em mente? 

Tenho vários, mas eu prefiro não contar ainda! Não sei se vou executar agora ou daqui 10 anos, nem sei se vão dar certo. Prefiro mantê-los comigo ainda. Tenho tido muito interesse em psicologia, em particular por Jung e na questão do corpo e da sexualidade humana. Estou em busca de um mestrado que envolva fotografia, arte e psicologia para estudar e desenvolver algo que envolva esses temas.

Galeria de Fotos: Ele trocou o certo pelo incerto

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8Comments

  1. Gisele, adorei sua matéria. Sou amador querendo me profissionalizar. Lendo essa matéria, vejo que tudo é possível quando se tem um sonho!!! Parabéns a vc e o Marcus Laranjeira.
    Chico Lopes.

  2. Parabéns Marcus pela sua nova carreira e excelência em suas fotos. Definitivamente seu talento e paixão não estavam na tecnologia e nem no mercado corporativo! Muito sucesso com a fotografia!
    []s de seu amigo distante
    Gustavo Khozam

  3. Marcus, Gustavo, Giselle, lendo esta matéria novamente pude sentir o que o Marcus sentiu. Sempre fui da área técnica, informática, eletrônica, mas hoje (com a solene presença da minha psicóloga…) descobri que por décadas confundi hobby com carreira… Tenho habilidade com mecânica, eletrônica e informática, mas achava que tirar “fotinhas” de churrasquinho na praia era um hobby divertido. Pulando de emprego a emprego, sempre me sentindo insatisfeito, hoje me vi mais uma vez fora do mercado e “meio” que acordei para a vida… Meu último emprego foi na área de oftalmologia técnica (três anos), e acho que isso despertou o monstro adormecido, pois fazia adaptações de câmeras digitais em equipamentos de diagnóstico por imagem, fotografando retinas e córneas! Mas a empresa estava quase fechando, fui demitido e agora estou utilizando seguro desemprego até dezembro, investindo em congressos, melhoria do meu equipamento (bem simples, uma Nikon D70s usada mas com só 8.000 clicks, uma lente 18-105, um tripé, um disparador remoto, um filtro polarizador e uma mochila de fotógrafo que ganhei no começo de outubro em um sorteio no Foto Innovation em Curitiba!!!) enfim, usando essa pequena renda para meu aprimoramento. Minha mulher tem o mesmo pensamento da Cris, e acha que eu devo mesmo pensar em fazer o que gosto pois ela não depende financeiramente de mim. Essas mulheres… que sorte nossa hein Marcus??? (rs). Quis deixar esse registro por pura identificação com a história de vida do Marcus. Não tenho vocação para mercenário. Que me desculpem os fotógrafos comerciais, nada contra, mas no meu caso, não consigo fazer um trabalho só para ser remunerado ou fazer fotos “da hora”. Se eu puder ser remunerado pelo meu trabalho auroral, serei o mais feliz dos mortais. Um dia falei com minha esposa sobre uma ideia louca que me passou pela cabeça de fazer um ensaio sensual (boudoir) com umas garotas vestidas de bruxa e quase fui posto fora de casa!!! Não pela sensualidade mas pelo apelo comercial. Aí eu falei (só pra provocar) se não seria melhor de chapeuzinho vermelho e ela já ia começar a esvaziar o guarda-roupas quando eu falei: “brincadeirinha!!!!” rs rs!!
    Tenho uma pegada urbana parecida com a do Marcus mas com outro enfoque. Movimento, noturnas e detalhes, muitos detalhes. Já pensei em me dedicar à macrofotografia. Essa ideia está em gestação…. Adoro detalhes que revelam mais detalhes, e assim por diante…
    É isso, vivendo e compartilhando. Se puderem, visitem http:/chicolopesfoto.com que já dá pra ver o meu estilo. Postem comentários, críticas, enfim, tudo o que acharem bom. Até a próxima!!!

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