Mulher e uma criança sentadas em um banco, olhando para as ondas do Mar Báltico.

O olho sob a bota

 -  19 / Nov

A Lituânia foi uma das chamadas Três Repúblicas Bálticas da União Soviética. Em 1940, em plena Segunda Guerra Mundial, os comunistas marcharam sobre o país, que permaneceu até 1991 sob a força do regime. Seu povo sofreu a violência física e ideológica típica dos autoritarismos. Mas enquanto a propaganda oficial se encarregava de criar um coletivo soviético, um fotógrafo congelava no tempo o olhar sereno do indivíduo lituano. Seu nome: Antanas Sutkus.

Sutkus resistiu à censura para imprimir uma abordagem diferente à fotografia das classes trabalhadoras. Ao longo de mais de 50 anos de trabalho, ele acumulou quase um milhão de negativos e eternizou em sua obra  homens e mulheres comuns. A maioria desses filmes só veio à tona após a queda da URSS, e uma pequena – mas bela – parte desse trabalho poderá ser conferida até o próximo dia 5 de janeiro no Instituto Tomie Ohtake, na exposição Pessoas da Lituânia.

Exposição

A mostra, inaugurada em parceria com o Consulado Geral da Lituânia no Brasil, traz 35 imagens em preto-e-branco que retratam cenas do cotidiano dos lituanos em um período que vai de 1976 até a década de 90. O desejo do fotógrafo de alcançar a alma humana a despeito da estética oficialista foi bem sintetizado pelo próprio Sutkus, em entrevista concedida à revista Cult. “A fotografia é uma crônica espiritual contemporânea”, declarou. É o que se pode constatar ao ver os trabalhos de Sutkus: seus personagens inscritos em cenários quase prosaicos mostram, pela parte, o todo daquele mundo complicado. E não é isso mesmo que uma crônica faz?

Na verdade, Sutkus de fato fazia parte daquele mundo, desde cedo vira o autoritarismo de perto. Quando tinha um ano, perdeu o pai, que se suicidou por causa da perseguição política. Já um jovem fotógrafo, Sutkus teve a oportunidade de conviver com Jean-Paul Sartre, com quem conversava por horas e horas. Aliás, foi Sutkus quem tirou uma das fotos mais famosas do filósofo, em que Sartre aparece andando nas dunas de Nida, no sudoeste da Lituânia, em 1965. Sutkus já demonstrava aí sua capacidade de retratar as narrativas humanas com lirismo e espontaneidade, característica marcante na mostra Pessoas da Lituânia.

Afinal, debaixo da bota dos soviéticos, Antanas Sutkus não se deixou esmagar. Fez o que os grandes fotógrafos fazem: preservou a delicadeza dos olhos para elevar a materialidade ao estado de arte.

Mais informações

  • Onde: Instituto Tomie Ohtake – Rua Coropés, 88. Pinheiros, São Paulo (SP).
  • Quando: de 13 de novembro de 2013 a 5 de janeiro de 2014
  • Horários: de terça a domingo, das 11h às 20h
  • Entrada gratuita

Galeria de Fotos: O olho sob a bota

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