"País Interior" (2012), do coletivo Cia de Foto, é um ensaio formado com fotografias que habitam o filme Terra em transe, 1967, dirigido por Glauber Rocha.

Um por todos e todos por um: os coletivos de fotografia

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 -  11 / jul

Os coletivos são uma tendência na arte contemporânea. Diferentes de uma agência ou de uma cooperativa, onde os trabalhos são assinados individualmente, esses grupos se destacam pela dissolução do conceito de autoria. Nos coletivos, diz-se que o trabalho é colaborativo pois o mérito de sua realização é repartido entre os membros do grupo.

O momento atual é propício para a difusão desse modelo, que incorpora ao processo criativo questões que estão se proliferando no mundo todo, como a diluição das fronteiras territoriais, o poder agregador dos novos meios de comunicação, o hibridismo nas artes visuais e uma nova forma de pensar e ocupar o espaço público. Tudo isso surge como oposição a um cotidiano fragmentado, marcado pela crise da representação do sujeito, da realidade, da matéria – enfim, por tudo aquilo que caracteriza a ambiência pós-moderna.

Quer dizer que essa forma de organização surgiu agora?

Na verdade, não. “A noção de autoria, sobretudo ligada a um indivíduo, não existiu sempre na história. Existe com mais clareza há uns 500 anos. Antes, os contornos desse sujeito não eram assim tão claros. Por exemplo, não se sabe ao certo se Homero escreveu a Ilíada e a Odisséia, se foi um cantador erudito que organizou narrativas que circulavam pela Grécia, ou se é uma espécie de personagem-síntese dos próprios mitos que são narrados por sua suposta voz”, diz Ronaldo Entler, professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

“Foi a modernidade (no sentido amplo, algo que começa a se organizar lá pelos séculos XVI, XVII) que construiu a noção de indivíduo, alguém que se sente autônomo com relação a Deus, à natureza e à coletividade. É aí que surgem os gênios, com seus estilos peculiares, suas personalidades marcantes, com suas assinaturas valiosas”, explica, citando o livro O que é um autor? (1969), de Michel Foucault, como referência.

Pensando nisso, destacamos o trabalho de cinco grupos multimídia que – acreditamos – vale a pena conhecer.

Coletivo Garapa

O ensaio "Dissonante, vago" Fotografia do coletivo Garapa, parte do ensaio "Dissonante, vago" (2013) é uma peregrinação pelo Brasil em busca dos vestígios da Coluna Prestes.

Fotografia do coletivo Garapa faz parte do ensaio “Dissonante, vago”, feito em 2013.

O Garapa é formado por três membros: Leo Caobelli, Paulo Fehlauer e Rodrigo Marcondes, que têm como objetivo “produzir narrativas visuais, integrando múltiplos formatos e linguagens, pensando a imagem e a linguagem documental como campos híbridos de atuação”, como eles mesmos definem. Eles estão juntos desde 2008 e já realizaram mais de 20 oficinas no Brasil e no exterior, contando inclusive com a companhia de outros coletivos como o Galeria Experiência, que documentou a 29ª Bienal de São Paulo e também tem trabalhos incríveis ;).

Os três já ganharam o X Prêmio Marc Ferrez de Fotografia e o III Prêmio Diário Contemporâno de Fotografia. Suas obras já foram expostas no Museu de Arte de São Paulo (MASP), no Museu Oscar Niemeyer, no Centro Cultural São Paulo, no Paço das Artes, no National Hispanic Cultural Center (Estados Unidos), no Museu Marítim (Espanha), no Centro de Arte Contemporánea (Quito, Equador) e em vários outros espaços de referência. Você pode checar a lista completa no site oficial do grupo.

Entre os ensaios, destacam-se Dissonante, vago, Calma (exposto na FotoBienal 2013), A margem (sobre o qual já falamos aqui) e Morar. O primeiro foi realizado em 2013 e tem como mote uma peregrinação pelo Brasil em busca dos vestígios da Coluna Prestes. Para ler mais sobre o Morar, fica como sugestão essa entrevista que o grupo cedeu ao portal setefotografia.

O ensaio "A Margem", do coletivo Garapa, é uma xploração documental e afetiva do Rio Tietê (São Paulo, SP).

Fotografia do coletivo Garapa faz parte do ensaio “A Margem”, feito entre 2012 e 2013.

Em "Deslocamentos", o coletivo Garapa apresenta ao público a representação de uma metrópole não usual.

Fotografia faz parte do ensaio “Deslocamentos”, do coletivo Garapa.

pangeia de dois

Esse é um coletivo multimídia baseado em São Paulo, formado por Malu Teodoro e Vinicius Assencio. O grupo surgiu em 2009, com a criação do blog pangeia de dois, que narrava a experiência da dupla no período em que eles moraram no México, para fazer uma residência artística no Centro de la Imagen. Hoje, eles também recebem a ajuda de Felipe Santo.

O pangeia de dois produz vídeos e fotografias (às vezes, séries compostos de ambas as mídias) que exploram a subjetividade humana. O tempo que passa, a memória que fica, a distância que separa as pessoas umas das outras  – são temas assim que eles abordam em ensaios como Contigo quero dividir minha solidão, Transe e Do partir e seus efeitos secundários.

Em Rua, vídeo inspirado no livro homônimo do poeta e tradutor Guilherme de Almeida, com fotografias de Eduardo Ayrosa, eles fazem uma reflexão sobre a cidade enquanto “ilha de cimento”, enquanto espaço de encontros e desencontros. O vídeo foi produzido para o encontro Pensamento e Reflexão na Fotografia realizado no Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS-SP), em 2012.

Confira a seguir alguns de seus trabalho. O primeiro é o Rua; o segundo é um vídeo-postal produzido em 2010, chamado Para Igor.

Clique aqui para visitar o site oficial do grupo.

Cia de foto

O Cia de Foto era composto por Rafael Jacinto, João Kehl, Pio Figueiroa e Carol Lopes. Era? Sim, nesse tempo verbal mesmo: eles anunciaram o término da parceria em dezembro do ano passado, depois de 10 anos juntos.

Com base na região de Pinheiros, em São Paulo (SP), juntos eles fizeram ensaios artísticos, editoriais publicitários e retratos de artistas como Gilberto Gil, Selton Mello, Wagner Moura, Fernanda Montenegro e Yoko Ono. Representados pela Galeria Vermelho, eles participaram de inúmeras exposições no Brasil, na França, no México, na Inglaterra, nos Estados Unidos e em vários outros lugares. Entre os ensaios, destacam-se Estádio (2012), País Interior (2012), Chuva (2010), Agora (2011) e Passe Livre (2013), publicado na edição nº 5 da revista ZUM.

Em abril de 2014, a revista ZUM publicou uma entrevista com Pio Figueiroa na qual ele fala um pouco sobre esse ensaio e sobre o grupo como um todo. Nela, são abordados tópicos interessantes, como a busca por uma unidade estética, sobre as negociações entre os membros do coletivo e sobre a relação entre fotojornalismo e ativismo nas ruas.

Na imagem, uma transeunte é flagrada atravessando a rua, com o rosto coberto pelo guarda-chuva que ela carrega.

Fotografia do coletivo Cia de Foto, parte do ensaio “Chuva” (2010)

O ensaio "Agora" (2011), do coletivo Cia de Foto, é um trabalho introspectivo baseado no uso da luz.

Fotografia do coletivo Cia de Foto, parte do ensaio “Agora” (2011).

Clique aqui para visitar o site oficial do grupo.

Kameraphoto

Fotografia do coletivo Kameraphoto.

Fotografia do coletivo Kameraphoto.

O Kameraphoto é um coletivo de fotógrafos fundado em janeiro de 2003, formado por nove membros: Alexandre Almeida, Augusto Brázio, Céu Guarda, Guillaume Pazat, Jordi Burch, Martim Ramos, Nelson d’Aires, Pauliana Valente Pimentel e Valter Vinagre.

Na página oficial do grupo, eles têm uma seção dedicada aos ensaios pessoais e aos trabalhos conjuntos. Como esse é um post dedicado a projetos feitos em conjunto, destacamos apenas Diário da República, State of Affairs, 450, Lusofonia e 10 anos de Microcrédito em Portugal.

A proposta de Diário da República é bem legal. Para fazer esse projeto, o grupo fotografou Portugal ao longo dos 365 dias do ano, inserindo essas imagens na galeria de uma página dedicada ao projeto.

State of Affairs reúne 91 fotografias captadas em 13 cidades do mundo. Essas imagens foram expostas no Festival Pera Fest 2010, de Istambul.

Vale lembrar que, em 2014, dois integrantes do coletivo participaram do Fórum Fine Art Inside (parte da Feira Fotografar, organizada pela revista FHOX). O Jornal da Fotografia estava lá e publicou algumas das reflexões de Jordi Burch e Martim Ramos aqui.

Fotografia feita em uma fábrica de artigos religiosos.

Fotografia feita em uma fábrica de artigos religiosos por Alexandre Almeida, do coletivo Kameraphoto.

Fotografia do coletivo Kameraphoto, parte do Projeto TXT. Na imagem, um edifício visto à noite, onde destacam-se as luzes vindo das janelas.

Fotografia do coletivo Kameraphoto, parte do Projeto TXT.

Para visitar o site oficial do grupo, clique aqui.

Trëma

O grupo existe desde 2013 e é formado por Filipe RedondoGabo MoralesLeonardo Soares e Rodrigo Capote, que se conheceram na redação da Folha de São Paulo. A ideia de formar um coletivo surgiu em 2012, quando os quatro decidiram aproveitar a estrutura do estúdio que compartilhavam para criar trabalhos não-comerciais.

Seus trabalhos falam sobre temas como a identidade nacional e a vida em comunidade no Brasil. Como características estéticas, destacam-se o uso do retrato como fio condutor das narrativas e o emprego da fotografia direta, que vêm amplificar o caráter documental das imagens.

Eles ainda não são representados por nenhuma galeria de arte. Para fazer a divulgação de seus ensaios e atingir um grande contingente de pessoas, o coletivo usa a internet ou publica suas fotos em revistas como a National Geographic Brasil e a Piauí, mesmo porque o Trëma não faz apenas trabalhos autorais: eles também têm clientes no mercado editorial, corporativo e de publicidade.

Pedimos para os integrantes do grupo falarem um pouco mais sobre alguns de seus ensaios. Veja a seguir algumas informações e fotos sobre as séries Oferenda (2013), exposta na 5ª edição da Mostra SP de Fotografia, e Tropa de Elite (2013):

Oferenda (2013) apresenta objetos encontrados pelo pernambucano Roberto da Silva no leito do Rio Tietê. Conhecido como Lagartão, ele recolhe material reciclável há 14 anos navegando as águas poluídas da represa da Barragem de Pirapora do Bom Jesus, na região metropolitana de São Paulo (SP). Por curiosidade, Roberto recolhe itens que, apesar de não terem valor comercial, formam uma memorabília do seu cotidiano e, mais além, do da metrópole.

Tropa de Elite (2013) retrata membros de um exército formado por moradores da região do Pinheirinho, no município de São José dos Campos (SP). O grupo é formado por pessoas comuns que se uniram contra o despejo e os abusos cometidos pela Polícia Militar durante a desocupação do terreno, decretada pela justiça estadual de São Paulo. Alega-se que ao menos duas pessoas foram mortas em decorrência da operação, fora as dezenas de pessoas que foram feridas, detidas ou estão até hoje desaparecidas. Foi assim que, em janeiro de 2012, os moradores do Pinheirinho declararam que resistiriam à desocupação e criaram uma força de resistência equipada com restos de tambores, coletes de compensado e caneleiras de tubos de PVC. Conhecido internamente como A Tropa de Elite, o grupo relembra a força e a importância da luta coletiva.

Retrato do catador de lixo "Lagartão" feito em 2013, na cidade de Santana de Parnaíba.

“Lagartão, Santana de Parnaíba, 2013″ é uma fotografia do coletivo Trëma, parte do ensaio “Oferenda”.

Um dos moradores da chamada "Tropa de Elite", movimento formado pelos moradores da região do Pinheirinho, no município de São José dos Campos (SP).

Fotografia do ensaio “Tropa de Elite” (2013), do coletivo Trëma.

Anote já na agenda: entre 26 de agosto e 4 de setembro, acontece o Encontro de Coletivos Fotográficos Ibero-americanos na cidade de Santos, em São Paulo. A nova edição do E.CO será a maior mobilização fotográfica que a cidade já teve, com a presença de mais de 80 Mais de 80 artistas ibero-americanos que estarão reunidos para repensar a cidade visualmente e para participar dos debates, apresentações, intervenções e uma grande mostra que fazem parte da programação do evento. Clique aqui para saber mais!

Galeria de Fotos: Um por todos e todos por um: os coletivos de fotografia

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