Apresentação da exposição Documental Imaginário, escrita por Eder Chiodetto (Foto: reprodução)

Você sabe o que faz um curador?

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 -  13 / fev

Quais são as principais funções do curador? Com que outros profissionais ele trabalha e quais são os principais aspectos na concepção e desenvolvimento de uma exposição fotográfica? Rubens Fernandes Júnior, Eder Chiodetto e Iatã Cannabrava apresentam algumas ponderações sobre essa profissão.

Ele está presente em todas as etapas da montagem de uma exposição: na seleção e edição de uma série fotográfica, na escolha da luz e da cor das paredes, na museografia e na produção do texto curatorial. Ele pesquisa acervos, conhece os artistas e diretores de instituições culturais, dá consultoria para colecionadores, acompanha prêmios e concursos, lê revistas especializadas, visita ateliês, galerias, museus e eventos de arte. Depois disso tudo, ainda arranja tempo para ler sobre Artes Plásticas, Fotografia, Cinema, Música, Literatura, História, Filosofia, Física, Química – e a lista não acaba aqui.

Tente imaginar o curador como um maestro que rege uma orquestra. Comparação, aliás, que faz bastante sentido, se considerarmos que a palavra vem do grego “orkhéstra”, termo que designava o espaço físico entre os espectadores e o cenário nas representações teatrais da Grécia Antiga. Para viabilizar a peça, sempre calcada na performance e na escolha de um texto, era necessária a formação de uma equipe multidisciplinar.

Iatã Cannabrava durante o Fórum Latino-americano de Fotografia

O fotógrafo e também curador Iatã Cannabrava (Foto: Fórum Latino-americano de Fotografia)

Temos aí algumas palavras-chave fundamentais para entender como funciona a curadoria, que implica a ideia de que há uma narrativa a ser contada, a figura do curador como coordenador de um grupo de trabalho que não só organiza mas concretiza o evento (o que consequentemente pressupõe um espaço para abrigá-lo) e aquele que cria e, portanto, ativa essa cadeia de acontecimentos: o artista. Isso porque uma exposição visa o encontro entre a criação artística e a recepção do público que, tal como em um espetáculo, interage em uma zona de experiências e subjetividade marcada pela fruição, que o projeto curatorial estimula de acordo com as suas (de)limitações estéticas e conceituais.

“No caso de exposições em que há mais de um artista, como é o caso da Bienal, o curador é um arranjador de discurso coletivo. Da mesma forma que cada músico tem seu jeito de tocar e o maestro faz a união entre os diversos instrumentos (que, por sua vez, correspondem aos elementos da exposição), o curador amarra um discurso, amalgama materiais, cria vínculos entre as obras dispostas”, explica Iatã Cannabrava, fotógrafo e organizador dos eventos Paraty em Foco, Encontro de Coletivos Fotográficos Íbero-Americanos e o Fórum Latino-Americano de Fotografia.

Para desenvolver esse trabalho, que tem como finalidade potencializar – nunca ofuscar – as propostas dos artistas, o curador orienta o trabalho do grupo formado pelo museógrafo ou arquiteto (responsável pela execução do desenho que será implantado na sala, compreendendo a disposição das obras e das paredes), designer (aquele que sugere soluções gráficas para a sinalização da sala, para a composição do texto e para a coloração das paredes; além disso, ele também propõe o material a ser utilizado nas fichas técnicas, produz o folder e indica tipologias e tamanhos de corpo adequados), o responsável pela iluminação (que estabelece a temperatura-ambiente, fundamental para a criação da atmosfera) e, não raro, o próprio diretor da instituição onde a mostra será realizada participa da conceituação e desenvolvimento do projeto – afinal, o acervo de cada espaço diz muito a respeito dele. Um bom exemplo é o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), que se caracteriza pelo enfoque nas questões contemporâneas.

O crítico Rubens Fernandes Júnior durante o Fórum Latino-americano de Fotografia

O pesquisador e crítico Rubens Fernandes Júnior (Foto: Fórum Latino-americano de Fotografia)

“O que vem antes de tudo é o espaço, porque não adianta fazer uma exposição com 80 imagens se não cabe tudo no local. Quando você vai a uma exposição e sai em êxtase, você sente isso porque a cor da parede, o texto, a luz são bons. É preciso ter o controle dessas variáveis para depois poder fazer a sua seleção, nunca esquecendo que a curadoria é um diálogo: você tem que estar em permanente diálogo com o artista e com a obra dele”, diz o crítico Rubens Fernandes Júnior, diretor e professor da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP).

E como se faz a edição de uma série fotográfica? Como é que o curador percebe a vocação do artista?

“Ao ler um portfólio, eu procuro compreender o universo estético e simbólico do fotógrafo. E isso vai muito além do meu gosto pessoal. Não pesquiso procurando apenas coisas que gosto, mas trabalhos que tenham uma contundência como discurso, uma verdade interior. Trabalho com os fotógrafos dos meus Grupos de Estudo e Criação em Fotografia, por exemplo, auxiliando-os a encontrar/afinar a sua ‘voz’ na linguagem que eles elegeram para se expressar. Tento perceber se há um vão entre desejo de representar e a representação em si. Assim sendo, tanto faz se o fotógrafo é um documentarista, se trabalha no campo mais metalinguístico e experimental”, relata Eder Chiodetto, autor do livro Curadoria em fotografia: da pesquisa à exposição.

Para Iatã Cannabrava, não é mais nem menos difícil trabalhar com séries fotográficas de caráter mais intimista em comparação àquelas que orbitam dentro de períodos ou temas referenciais. “Tudo depende do background, do currículo não oficial, do estilo do curador. Se ele tem uma visão ou um apreço pela fotografia ‘subterrânea’, ele vai mergulhar com facilidade nesse tema. O que existem são afinidades curatoriais e a dificuldade é proporcional ao entendimento que o curador tem de cada trabalho”.

Difícil mesmo é adquirir esse repertório. Das últimas décadas para cá, “curador” e curadoria” se tornaram palavras cada vez mais comuns no jargão popular, passando a ser utilizadas em outros campos que não o das artes visuais. Rubens Fernandes Júnior acredita que estamos diante de uma banalização dos termos.

“O trabalho de curadoria é um work in progress”, explica. “O curador é um profissional que tenha um amplo repertório e um profundo estudo sobre o tema ou assunto a ser discutido. É aquele que filtra, analisa, escolhe; é aquele que, diante de um conjunto de obras, tem condições de perceber e separar aquilo que tem alguma singularidade dentro do tema que o fotógrafo está desenvolvendo. É fundamental que ele tenha uma visão ampla sobre a fotografia histórica e contemporânea para poder desempenhar esse trabalho, pois um curador não se forma da noite para o dia. A condição mínima para se denominar curador é ter uma experiência na área de muitos anos. Infelizmente, nossa sociedade é muito superficial e a palavra teve um sentido esvaziado pela própria mídia”.

Eder Chiodetto, no entanto, vê essa questão de outra forma: “Já vi ‘curador de vinho’ e outras categorias estranhas também. Mas no geral é uma forma de dizer que há alguém que pesquisou determinadas coisas e traz à tona uma seleção a partir de alguns critérios. Não vejo problema nesse uso indiscriminado da palavra. A língua é viva”.

O crítico Eder Chiodetto

O crítico Eder Chiodetto (Foto: extraída do livro “Curadoria em Fotografia: da Pesquisa à Exposição”)

Vale ainda destacar a importância do curador na difusão da cultura e alfabetização visual do público. Mais do que traduzir a obra do artista ou ilustrar uma hipótese pessoal, deve-se ter em mente que a curadoria e a arquitetura de uma exposição são gestos políticos: a escolha entre problematizar certas questões e outras não, de colocar determinados artistas no eixo conceitual e de sugerir – com o recorte e construção das vizinhanças – certas proposições e/ou interpretações (tomando sempre o cuidado de não restringir o universo criativo do observador) são escolhas concretas, materializadas na própria montagem da exposição.

“Dizer que o curador ‘faz a ponte entre o mercado e o artista’ é uma noção equivocada. O papel do curador é fazer um acompanhamento do processo de criação, é se aprofundar no estudo da obra de um determinado artista ou encontrar vínculos entre diversos artistas, criando uma narrativa”, aponta Iatã. E conclui: “Muitas vezes, aquilo que parece mais hermético, difícil de ser entendido, é compreendido de forma simbólica e mais útil pelo espectador. Quando bom, todo projeto curatorial é um projeto educacional”.

Clique aqui para fazer o download do livro Curadoria em Fotografia: da Pesquisa à Exposição, de Eder Chiodetto.

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2Comments

  1. Olá boa tarde.

    Sou Marcos Rogger e venho através do jornal da fotográfica, buscar seu contato para ver a possibilidade de escrever sobre meu trabalho, onde em meus trabalho encontra se a pintura corporal monocromática, em uma caixa grade escura donde venho desenvolvendo meus trabalhos artísticos aliado a fotografia, junto com ela performance e dança, com as artes plástica.

    Estou a mais de 20 anos nesta profissão e não tive a oportunidade de apresentar uma exposição, em minha cidade, Salvador BA, mudei -me para o Rio de Janeiro em busca desta oportunidade de poder mostrar meu trabalho através de uma exposição e não obtive sucesso, estou a procura de contatos com críticos e jornalista de fotografia para que possa escrever sobre este meu trabalho.

    Para melhor visibilidade de avaliação segue a baixo meu site:
    http://www.atelierfotoplastico.com.br
    tel 21 77032079

    https://www.facebook.com/atelier.fotoplastico

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